Crônicas da Fê – Uni duni tê salamê minguê!

por Aline Resende

cores

Escolhas. Aquela “ferramentazinha” presente em nossas vidas desde quando nos entendemos por gente. Penso que boa parte das pessoas tem suas dificuldades em fazer escolhas. Afinal, estou optando por algo? Ou abrindo mão de outro? Será que optar por um caminho é a perda de uma chance de conhecer o outro? E agora?
Quando comecei a pensar sobre a árdua, necessária e surpreendente tarefa de fazer escolhas, lembrei de um momento que vivi recentemente.
Outro dia, fui almoçar em um self-service em frente o meu local de trabalho. Nesse self-service, as pessoas desconhecidas sentam-se juntas. Almoçam juntas. É SELF, só que todo mundo junto. Tava começando o ritual alimentar do meio-dia, quando um rapaz se aproximou, me pediu licença e um lugarzinho na mesa onde eu estava sentada. Depois do obvio “sim”, ele se sentou, e, desculpe, de maneira automática, olhei para o prato dele. Pra ele. Para o prato dele. Pra ele. Como eu jamais memorizaria tudo que meus olhos estavam enxergando, decidi, de maneira sutil e disfarçada, anotar no meu bloco de notas o que havia naquele prato eclético, diversificado, confuso e feliz do sujeito.
Vamos lá! Havia: Filé de peixe, coraçãozinho, empadão de frango, lombo, carne de panela, alcatra, torta de pão de forma, arroz, ovo, strogonoff, feijão, couve, suflê de espinafre, e no canto, uma tímida salada de maionese. (faltava uma coxinha ali!)
Pensei. Será que esse rapaz não sabe fazer escolhas, ou apenas não consegue abrir mão daquilo que gosta? “Vou pegar feijão e strogonoff. Queria muito comer strogonoff hoje, mas se eu não pegar o feijão vou passar vontade e acabar me arrependendo”. Ninguém quer passar na fila do self-service duas vezes. Misture.
Cinema ou teatro? Samba no fim da tarde ou jazz à noite? Cerveja ou vinho? Peixe, frango ou carne? Estudar ou procurar um emprego? Setor público ou privado? Graduação ou curso técnico? Praia ou cachoeira? Namorar ou ficar solteiro? Comer o chocolate ou manter a dieta? Correr, pedalar ou nadar? Sair com a turma do colégio ou da faculdade? Morar sozinha ou ficar um pouco mais com a família? Economizar dinheiro ou gastá-lo para viajar? Antonio Carlos, Cristiano Machado ou Pedro II? Pedir demissão ou continuar no trabalho?Parar de fumar hoje ou daqui um tempinho? Ter um, dois ou três filhos? Casar ou não casar? Arrumar a casa ou curtir preguiça? Vou de carro, avião ou ônibus?
NOSSA!
De repente, você quer passar as férias na praia, mas seu corpo está pedindo uma tranquilidade das montanhas. Tem feeling para empreender, mas quer o conforto/segurança do serviço público. Quer terminar com aquela “mala sem alça”, mas tem preguiça do recomeço ou tem medo de ficar sozinho(a). Junta dinheiro, perde a oportunidade de gastá-lo com o tempo que passa fazendo escolhas, e agora, não sabe o que fazer. Graduou em medicina, mas descobriu o que queria da vida em um workshop que durou 6 horas.
Eu tenho impressão que há tantos labirintos dentro de nós, que somos capazes, sim, de querer tudo ao mesmo tempo. Tem hora que o espírito induz o Y, a alma pede o Z e o corpo vai lá e escolhe X. Acho que a maior dificuldade que envolve as escolhas, não é a parte escolhida, é a parte que deixou de ser.
Às vezes damos mais valor ao que desconhecemos do que aquilo que escolhemos ter. Por isso, as dificuldades em fazer escolhas. Às vezes simplesmente não priorizamos, porque gostamos de tudo, queremos tudo, podemos tudo, e no fim, acabamos sem nada. Às vezes a dificuldade de fazer escolhas é tão grande que permanecemos parados, inertes, ociosos. SABOTAGEM.
Medo de não saber escolher, medo de escolher e se estrepar, medo de se arrepender do que vai escolher. É tanto medo, tanto “SE” e falta de confiança em si mesmo, que a vida passa e você, aos 50 anos de idade, ainda deve se perguntar se fez certo ao se casar aos 20.
Aí, PASSAMOS ADIANTE. Quando se tem filho e não deixa ele fazer engenharia porque aquilo não te fez feliz. Seu pai fala pra você não fazer psicologia porque aquilo “não dá dinheiro”. Afinal, as pessoas tendem a achar que o que bom pra elas, é o melhor para o resto do mundo também.
Aí, PERCEBEMOS.
“Não faca esse curso!”, e você descobre que aquele curso era tudo que você precisava.
“Não leia esse livro!”, e você desejaria que a historia fosse uma trilogia ou algo que não acabasse nunca de tão bom!
Além de lidar com seus desejos, anseios, receios, inspirações e vontades, ainda temos que lidar com o que as pessoas ao nosso redor relatam sobre a experiência que tiveram, e do que a sociedade julga certo, ou julga errado, julga coerente, julga descolado, julga necessário, julga confortável, julga primordial, julga óbvio. PODE ISSO?
Não queremos fracassar. Não queremos lidar com arrependimento. De ter feito. De não ter feito. O excesso de autocobrança com as nossas escolhas só vem nos gerando culpa. CULPADA? Eu não!
Começar a separar as escolhas/opiniões dos outros das nossas. Entender as nossas necessidades. Escutar os nossos anseios. Reconhecer-nos. Talvez assim, todo mundo aprenda a fazer escolhas ou apenas conectá-las mais com a ideia de uma experiência, do que de um grande e fundo arrependimento. SIMPLIFIQUE.
Talvez hoje, eu coma o suflê de espinafre, amanhã a torta de pão forma, e, no final da semana, uma tímida maionese. Talvez nenhum dos três. Talvez queria ocupar meu prato com mais suflê de espinafre por que a torta de pão de forma me enjoou e não faço tanta questão de maionese mais.
Cada dia uma escolha. SIM.
Cada escolha uma renúncia? SERÁ?
BOM. O sorvete colorido escolhido de hoje foi tentar ser a melhor versão de mim.
E o seu? É DE QUE?

UNI DUNI

Texto: Fernanda Petri

Imagens: Reprodução

Crônicas da Fê – Um aglomerado de sorrisos

por Aline Resende

sorriso-criança

A vida, nosso complexo de experiências. Penso (penso muito) que a nossa percepção é muito coerente com nosso propósito de enxergar. E finalmente hoje, uma situação chamou minha atenção. Indo pra casa de uma amiga, parei meu carro no sinal. Era a segunda da fila do meio. Vi, como de costume, pessoas entretendo no sinal, no intuito de ganhar algum dinheirinho/capilé. Eram 4 rapazes. Usavam suas roupas rasgadas, estavam sujos e descalços. Seria algo rotineiro, se a minha percepção nesse dia não estivesse alterada, diante do claro e recente propósito de enxergar.

Parei pra pensar (penso muito).

Eles estavam fazendo a “festa” no sinal!Havia fogo, malabares, os rostos estavam pintados, eles pulavam uns sobre os outros. Ombro, cavalinho, saltos, uma verdadeira ginástica artística urbana (raspando o tacho do espírito olímpico), um circo a céu aberto. Estavam na tentativa de entreter e fazer sorrir todas aquelas pessoas que se encontravam mergulhadas em seus carros, com o ar condicionado “no talo”, vidros fechados, som ligado, mundo particular. Olhei atrás, através do retrovisor, havia um jovem compenetrado/conectado em seu celular. Devia estar caçando um Pokémon. Olhei pro meu lado direito, havia um casal, em uma velha e corriqueira discussão de relacionamento. Do meu lado esquerdo havia um senhor, que observava a apresentação (ou só tava mirando seu olhar naquela direção), como olha pra um livro entediante, que começou a ler há três meses e não chegou no segundo capitulo.

Algo estava invertido. Às avessas. Ou simplesmente, se inverteu na minha cabeça pensante.

Supostamente quatro moradores de rua, para alguma forma de sustento, tentavam brotar um sorriso no rosto daquelas pessoas encaixotadas em seus veículos, que usualmente passam boa parte do tempo reclamando da vida e do trabalho que possibilitou a compra da casa para qual se dirigiam, e do carro que sustenta saquinhos de bala “você compra e minha vida fica mais doce”, “vendo essas balas porque não posso vender minha sogra”, em seu retrovisor, no sinal. Todo dia.

Chuva de lembranças!

Lembrei da alegria. Aquele sentimento/sensação itinerante, mágico, que não custa nada e tem tanto valor. Lembrei-me da Dona Ilma, um ser incrível que conheci na comunidade parque das missões, em Duque de Caxias/RJ. Tomando um café em sua cozinha, ela, diante da minha longa sequência de perguntas, me disse, sorrindo: “Para quem não tem nada, minha filha, sobra amor. Por isso, que quem não tem nada pra dar, é quem mais quer dar”. Que saudade da dona Ilma.

Lembrei dos lixeiros. Quando era pequena (não que eu ainda não seja) sempre quis fazer aquilo. Correr cantando e gritando, tentando pegar o máximo de sacos que conseguir, e pular na traseira do caminhão em movimento!

Enquanto a gente fica enjoada com o cheiro do lixo que nos mesmos produzimos, eles passam o dia, inalando o odor e cantando Zeca pagodinho com um sorriso no rosto que parece que uns 100 dentes extras vão pular da boca!

Lembrei do sorriso. De novo. Nossa arma do amor. Nosso instrumento de alegria, de gargalhadas. Como que até em momentos “baixos”, quando nos forçamos/tentamos um sorriso, aquilo é capaz de mudar nosso dia e de todas as pessoas que estão em nossa volta. Ilumina. Sorrir e “ser sorrido”de volta? PRESENTE!

A verdade é que em matéria de alegria e sorriso, quanto mais se dá, mais se tem. Este é um privilegio dos dentes saltitantes! Né? Sorria! Não custa nem um saquinho de bala…

doces-no-sinal

Texto: Fernanda Petri

Fotos: Reprodução

Crônicas da Fê – Quem tem amigos tem tudo

por Aline Resende

QUEM TEM AMIGOS TEM TUDO

AMIGOS

 Amigos…

Vamos combinar meus amigos? É um achado, ganhado, doado, “oferendado”, presenteado, estimado, graduado, ofertado, referendado, mencionado, dado… Algo que a vida te faz enxergar, reconhecer, te traz, te presenteia, te doa, te estima, te gradua, te oferta, te referenda, te menciona, te dá (mesmo que karmicamente. Inventei essa palavra?). Te representa.

 Outro dia parei pra refletir (vou parar de falar pensar, por enquanto).  Refleti sobre a frase “quem tem amigo tem tudo”. Parei, pensei (ops!), tentei colocar lados, diferentes pensamentos, questionei, perguntei em voz alta, tentei encontrar solução… Nenhuma. Tem tudo. Mesmo. Esteja ele em forma de mãe, de pai, de irmão, de prima, de tia, de avó, de cunhada, do coleguinha de sala que copia seu dever de casa, de professor, de pessoa que trabalha com você, que trabalha na sua casa (uma mãezona), ou, daquele bom, velho, e, espero que constante encontro de almas.

 A verdade é que um amigo é aquele, que nas mais diversas situações, te faz perceber a si próprio. Põe a prova suas qualidades, defeitos. Testa seus limites. Pré-conceitos. Valores. Seu respeito. Sua caridade. Sua solidariedade. Seu amor. Seu carinho. Seu companheirismo. Sua LEALDADE. Seu bom humor. Seu SENSO de humor. Sua flexibilidade. Sua vulnerabilidade. Sua carência. Seu ciúme. Sua inveja (sim. Sua inveja). Sua cumplicidade. Seu senso crítico. Suas imperfeições. Suas intolerâncias. Sua paciência…

 É no real, amoroso, e mais confuso mundo da amizade, que algo vai tomando forma. Você começa a perceber quem você é. Na sua forma de lidar, mesmo amando o outro e a você mesmo. Como as pessoas te enxergam, quem você realmente é, como você percebe o outro, o que ele significa pra você? O que ele veio te mostrar/ensinar/passar na forma de amigo. Ele pode partir ou permanecer.

 Tenho os que passaram. Tenho os que são presentes e não estão ao meu lado (fisicamente). Tenho os que estão, mas tenho a ligeira impressão que não estarão sempre. Sinto os que são eternos.

 O “sinto” pra mim é “tipo” o “penso”. Constante pradaná!

 A grande verdade é não existem coincidências. Penso em algumas pessoas (sim, grandes amizades) que passaram por mim e deixam seu legado. Em algumas cores, cheiros, drinks, sorrisos, comidas, assuntos, livros, lugares… Os vejo ali. Lembro… Caso não me gere um sorriso, me gerou aprendizado.

E é pura hipocrisia ignorar alguns sofrimentos, que no final nos ensina, nos faz melhores.

 O que posso dizer do presente? Lembro-me de um dia em falei com grandes “amores amigas eternas” que tenho: “Nasci pra ter amigos”. Amigas como elas. Amigos/irmãos que levo na vida e no coração. Amigos de alma (que conheço em um dia e já basta).

Quanto tempo é preciso pra fazer um amigo? Sei lá. Tem pessoas que conheço há anos e não são meus amigos. Ontem conheci uma, que, se a vida permitir, quero pra sempre.

 A grande verdade é que esse pequeno grande mundo continua a girar e fazer suas conexões, firmar as conexões já existentes, desatar algumas. Falando assim, parece que sou colecionadora de amigos. Não. Acho que sou colecionadora de amores. Um, pode se transformar em vários. Não paro de me surpreender. De repente, um “serzinho” se multiplica. Mostra suas facetas. Aquela amiga preguiçosa se torna atleta. Aquela pessimista vira coaching. Aquela brava começa a tratar flores como pessoas e fazer dos momentos alheios os mais cheios de amor e vida. Aquela espevitada, que só arrumava encrenca, começa a meditar, falar/viver de amor e jogar capoeira. Aquela doutora se torna doutora do carinho, do amor, das piadas. Aquela questionadora que fala alto, e solta cada palavrão, começa a se encher de vitalidade através de abraços, amor (sempre presente), compreensão e paciência. Aquela, na qual você sempre acreditou, enxergou seu mundo de qualidades, começa, finalmente, a se ver, reconhecer, acreditar nela mesma.

 Aí, elas e eles vão mudando. Você vai mudando. Porque você também se faz enxergar e se enxerga. Se reconhece. Você também se reinventa. As historias vão somando, se multiplicando. As verdades vão se transformando. Os anseios vão mudando. Os caminhos se desencontram. E tornam a se encontrar.

 E no fundo, se não sobram boas lembranças e risadas, ficam eles. Bons. Velhos. Novos. Amigos. Amantes. Amores.

 Aqueles, que não se cansam de ser quem são.

Gratidão!

Fernanda Petri 

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Crônicas da Fê – “De louco todo mundo tem um pouco”

por Aline Resende

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Estamos com novos colunistas aqui no CDR e aos poucos eu vou apresentando-os à vocês.  A Fê Petri vai presentear a gente com crônicas e textos dos mais variados assuntos, e ela, assim como eu, ama escrever e faz isso como terapia. Que sorte a nossa:

De louco todo mundo tem um pouco

“Penso que de louco todo mundo tem um “muito”. Um “muito” de ideias, um mundo de pensamentos, um “muito” de perguntas e um mundo de respostas. Há sempre certa loucura naquele que permanece calmo, paciente e sereno diante do caos instalado na sociedade atual. Fala sério!Só doidão. Na verdade, normais são os loucos que reagem a loucura que se alojou nos valores humanos. PERGUNTA. O mundo sempre foi assim?

Essa é uma, do meu extenso, dramático e sincero mundo de perguntas. Acredito que não. Porque, talvez, se assim fosse, minha avó, por exemplo, não teria chegado aos 93 anos com uma saúde mental e emocional tão maravilhosa. Impressionante! Como que a ambição a carreiras, o acesso a materialidade fútil, e a interatividade social através da tecnologia foi capaz de mover/mexer tanto com a sanidade das pessoas vivas. Mortas, sei lá. Talvez isso seja apenas parte do mundo de pensamentos, que parte do “muito” de questionamentos, que ainda não conseguem serem respondidos, porque o mundo ideias não permite!UFA!

Enquanto a água acaba, a corrupção corroí, a economia pratica rapel, e a política fracassa, nada melhor que uma boa cervejinha no copo lagoinha pra gente celebrar o carnaval, a copa, as olimpíadas (escolha o evento de sua preferência). Se você bebe vinho, caipirinha, espumante, whisky, campari, vodka ou catuaba com açaí, não se sinta ofendido. Tá valendo!

Essa é uma loucura que talvez deva ser mantida, além de reduzir banhos, não reeleger políticos corruptos e se indignar, uma, duas, três vezes. Tem gente, por exemplo, que opta em se indignar pra sempre. VAI ENTENDER. A grande questão é que até as grandes rochas humanas (tipo aquela pessoa que você não imagina chorando e fala como se tivesse certeza de tudo) são voláteis hoje em dia. Porque a transitoriedade das ideias e situações não é capaz de permitir que você se estabeleça em um só ponto, por completo. Uma hora vamos ter que abrir mão de algo na tentativa de salvar algum valor. Ter boas ideias hoje em dia, é , muitas vezes, sonhar acordado. O brilhantismo delas simplesmente não se aplica a realidade transitória. Pra mim, sonhos mantidos, não divulgados, podem ser a porta da sanidade. O secreto, sempre seu (pode compartilhar se quiser), pode te apagar (eu sei), ou fazer você brilhar ainda mais quando te faz perceber que a realidade não passa de mera verdade dos loucos. Os sonhos secretos, genuínos, são capazes de nos reerguer como luz em tempos de sombras. O “muito” dos pensamentos tem que ser leve. O mundo de ideias deve ser criativo. Um “muito” de perguntas deve ser peneirado (?) O mundo de resposta merece ser buscado. O que fica, afinal, é a força insana, a loucura sóbria, a felicidade transitória e o copo lagoinha com cerveja até o topo (de preferência). COLOQUE UMA MUSICA. Desconectados, sim. Talvez. Loucos não. Ou sim. Pense. Idealize. Sonhe. Pergunte. Busque responder. É “muita” loucura ou é o normal ser “muito” louco no mundo de “muita” normalidade? TIM TIM!”

 Fernanda Petri

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