Crônicas da Fê – Curioso Caracol

por Fê Petri

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A Fê tava sumida por aqui, mas é por um motivo muito justo! Nossa colunista está ganhando o mundo e batendo suas asas por aí. A crônica de hoje, ela escreveu diretamente de Melbourne, na Austrália:

“Curiosidades. Movimentos particulares nos quais você se propõe a observar com atenção, mesmo quando o tempo se perde no embrulho da vida. De repente, no final dessa correria cotidiana, é você que esta dentro da caixa embrulhada pra presente. Pra quem, você nem sabe!

Pra não me embrulhar, observar tem sido uma escolha certeira aqui. As diferentes culturas, os diferentes porquês, as perguntas, as respostas, e digo mais, a forma como cada um se comunica, se olha, se emociona. O senso de humor em outra língua. A falta dele. A NATURAL falta dele. Pessoas que experimentaram um abraço pela primeira vez e adoraram. Que EXPERIMENTAM. Que ADORAM. Os Chineses que impõem sua presença majoritária demonstrando claramente sua intenção de dominação mundial. Japoneses e seu estilo surpreendente. Tailandeses com uma simpatia maravilhosa. Cambojians com aquela timidez com olhar de abraço. Vietnameses sorridentes e seu empenho nos estudos. Bondosos e puros Omanis. Mulçumanas que se protegem da atenção e do olhar, mas que aqui, recebem mais atenção e mais olhares. Indianos conversadores e sorridentes. Koreanos que sempre andam juntos. As vezes separados. Sempre com sono.

O que você percebe quando está entre diferentes padrões de cultura, é que todos aprendem, todos se estranham e todos se arriscam a dizer o que pensam. Todos se atrevem a participar, entender e respeitar o outro.

Curioso…

Todos falam, fazem e almejam tudo isso em outra língua. Fato é: Outra língua te desafia a ser você mesma de outra forma. Falar em outro dialeto, usando outra entonação, mudar expressões, pronúncia, ritmo, e, ainda assim, ser autêntica. Ser você. Respirar você, respeitar seu jeito. Como entendi meu jeito de ser quando achei que tinha que tentar transformá-lo e encaixá-lo em outro dialeto… Minha ironia, meu sarcasmo, minha empatia, meu carinho. Todos eles, diariamente, pareciam vestir outra roupa, calcar outro sapato. E, esse novo design vai fazendo mais sentido quando você vê que por dentro, nada mudou. Você não precisa colocar sandálias ou botas porque aceita e entende sua essência descalça. Aceita que aquele tipo de piada que você adora fazer, não faz sentido nenhum por aqui. Quantas vezes já tentei traduzir expressões que não fazem o menor sentido aqui? Quantas vezes eu fui a única a ficar em silencio porque a “piada” não fazia o menor sentido pra mim, enquanto todos riam alto?(LOL)

Por outro lado e ao mesmo tempo, você descobre piadas e risadas incríveis que às vezes te levam de volta pro seu próprio circo. Para o sentido do seu círculo. Aquela ciranda que vira um caracol. Na qual você sempre passa perto de alguém, mas nem sempre fica muito tempo, porque o caracol precisa de movimento. Meus amigos por exemplo não estão passando por mim no caracol. Eles estão na ciranda. De frente pra mim. Distantes de mim. Mas sustentamos o mesmo círculo. Seguimos rodopiando, conectados. Você não precisa estar longe para se desconectar. Às vezes você se desconecta estando no mesmo bairro. Na mesma escola. No trabalho. Na padaria. No salão. Na mesa do bar. RELATIVO.

CURIOSIDADE. Curioso ver o quão cada um tenta caminhar, de forma diferente, no caracol da vida. De vez em sempre você esbarra com indivíduos de grandes máscaras, fantasias e alegorias. De vez em quando passa por aquele glorioso NÚ que decidiu levantar os braços e soltar-se da roda, ou aqueles que querem lhe massagear as mãos durante a nossa ciranda, quase sempre caracol. Ele é pelado Chinês, ele é pelado Brasileiro, Indiano, Turco, Japonês, Australiano. Porque o peladão já entendeu que a alma não tem nacionalidade. Desde que o mundo é mundo. E que todo mundo nasce nú.

Os pelados sempre são aqueles sujeitos, que com uma palavra ou mil, com um gesto ou dois, incentivam o caracol a se tornar uma grande roda de novo, onde a maioria se vê, onde muitos se enxergam. Onde todos fazem parte da mesma e grande ciranda. Tirar uma, duas ou mais peças de roupa parece razoável e necessário. A máscara já foi “para o saco” porque eu já não conseguia ver se no fundo tava participando de uma linda ciranda ou de um confuso caracol. Vamos dar as mãos.

É muita fantasia sobrando no mundo. É muito mundo precisando se despir.

Roda mundo. Gira a grande roda.”

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Desconecte-se!

por Aline Resende

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Eu acordo, ainda com os olhos semi abertos checo a hora no celular. Desbloqueio e verifico as notificações. Whatsapp. Muitas mensagens. Abro e vejo alguma que possa ser mais urgente.  Olho o instagram. Só então me levanto, toma um banho, passeio com meu cachorro, tomo café da manhã, me sento ao computador e vou checar todas as outras redes. Email, facebook, twitter e instagram do CDR.

É bem louco pensar no quanto a tecnologia avançou em poucos anos. Eu tenho apenas 28 anos e vi o computador ser lançado como uma grande novidade, aqueles bem grandes que ficavam amarelados com o tempo e a gente tinha que proteger com capas plásticas. O que tinha de entretenimento era o paintbrush, os joguinhos e a possibilidade de escrever coisas no word. Só depois veio a internet. Discada. E eram horas tentando se conectar. A rede caia. Mas a gente amava aquilo. O wifi veio para democratizar a coisa toda. E aí os iphones e androides finalizaram o acesso irrestrito. Hoje, temos praticamente toda informação e ferramenta para resolver sobre o nosso dia bem no quadradinho em nossas mãos. Lá a gente verifica como está o tempo, olha o caminho que faremos para chegar à qualquer lugar, conversamos com amigos, familiares, clientes, namorados e maridos de qualquer parte do mundo, fazemos transações bancárias, verificamos a classificação do restaurante onde pretendemos almoçar e por aí vai. Quase tudo pode ser resolvido na palma das nossas mãos.

Avançamos? Sim, avançamos. Acredito demais na importância do desenvolvimento da tecnologia como forma de facilitar a nossa vida. Mas claro que existe a contrapartida. Não é novidade dizer que estamos mais próximos virtualmente e mais distantes na vida real. Vivemos mergulhados com as mãos e olhos na tela do celular e estamos nos esquecendo de olhar em volta. Olhar o céu, reparar na lua, observar as pessoas e lugares…

É por isso que eu, como uma pessoa que vive conectada, até mesmo por trabalhar com isso, tenho feito algumas pequenas mudanças para não me tornar escrava da rede. Decidi então, compartilhar aqui coisas que ando fazendo e que tem me ajudo muito:

1- Deixar o celular no silencioso

O meu celular não toca nem vibra. Eu não costumo receber ligações telefonicas porque decido tudo por whatsapp. Escolho alguns momentos do dia para checar a tela, e se tiver alguma ligação, eu retorno.  Caso alguém esteja para me ligar, me avisam por whatsapp e eu fico atenta à tela, ou coloco no alto só até a ligação ser feita. Meu celular vive no silencioso há alguns anos e funciona super pra mim.

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2- Desativar as notificações da tela

Não adianta deixar o celular no silencioso e ter a tela piscando mostrando que chegou mensagem O TEMPO TODO. Vejo muita gente se sentar para conversar com alguém numa mesa, deixa o celular no silencioso, mas a tela fica mostrando que chegaram mensagens. Tanto o dono do celular, quanto o não dono de celular acabam se distraindo e é bem desagradável.

Eu tenho mania de verificar a hora pelo celular e às vezes abro para resolver coisas nas quais não se incluem conversar com alguém. Se tiver na tela, uma parte de uma mensagem ou conversa, a gente acaba ficando curioso, ou se preocupando e acabamos por abrir a mensagem. Por isso, não recebo notificação nenhuma na minha tela. Quando quero verificar as mensagens, eu abro o app para ver. Fazer essa mudança mudou minha vida.

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3- Se não puder responder, não leia.

Tenho que me segurar para não falar sobre esse item com emoção porque tenho PAVOR de gente que lê mensagem com alguma pergunta e não responde. Tremenda falta de educação. Para mim, é como você estar sentada numa mesa com alguém, fazer uma pergunta e a pessoa te ignorar.

- E então, que horas iremos jantar hoje?

(barulhos de grilos)

Por isso, existe, claro, a opção de desabilitar a notificação de leitura. Muita gente não faz isso porque tem curiosidade de ver quando as outras pessoas leram as mensagens delas. Por isso, eu digo, se você não pode responder no momento, não leia. Segure a curiosidade. As leis de boa convivência agradecem. E minha paciência também.

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Estamos esperando até hoje.

 

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4- Quando estiver em eventos, encontros e festas largue o celular.

Eu sou fotógrafa e gosto demais de fotografar tudo à minha volta. Por isso, já me eduquei para pegar o celular e clicar tudo que eu quero e em seguida, guardá-lo na bolsa e curtir o momento sem me lembrar dele.

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5- Olhe em volta, repare nos detalhes, escute a música, veja as pessoas.

Esse último item é um clichê necessário. Gente, fico assustada quando vejo que as pessoas não reparam nos detalhes, não enxergam os outros e não sentem o momento de forma intensa.  A vida é tão cheia de coisas lindas, pelas quais devemos ser gratos. Coisas simples como o céu (não me canso de falar isso porque sou apaixonada por ele) , a lua, o entardecer, os detalhes dos lugares, os sons… Não vamos nos esquecer do que realmente importa.

Use a tecnologia a seu favor, seja grato, tenha sensibilidade e você vai ver que VIVER ainda é a melhor parte da vida.

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Crônicas da Fê – Nús e Crús

por Fê Petri

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Quanto tempo é necessário para aprender algo? Sobre amor, forma de amar, ouvir, falar, respeitar. Quanto tempo é preciso para aprender a parar de fazer perguntas, quando ainda não é hora de saber as respostas. Aprender a esperar ou fazer uma receita que da primeira vez deu certo e agora não dá mais.

Mudança de tato. Perde-se o jeito. Será que a receita é a mesma?

Estava escrito que a farinha já tinha fermento, não coloquei mais e meu bolo murchou. Quer dizer, não cresceu. CRESÇA. Um dia, com a mesma quantidade de ingredientes, sobrou calda para o mesmo tamanho de bolo, e agora to aqui, tirando da lateral para cobrir a textura de cima.

Que loucura!

Aquela corriqueira situação, na qual você trabalha uma idéia, um defeito, aprimora uma qualidade, promove mudanças internas, e, finalmente, acha que tirou a lição de tudo aquilo. O bolo está pronto. Calda perfeita. Crescimento perfeito. Em questão de segundos, você dá aquela mordida de satisfação pessoal e percebe que ele tá borrachudo, insosso. Porque no fundo, você só queria que o bolo lhe parecesse perfeito. Satisfação social. Em nenhum momento você pensou em fazer um muffin primeiro. Queria logo aquele bolo que serve 30. Não, não. Porque a questão aqui é alcançar resultados grandes que satisfaçam a todos. E quando você vê, está ali, com aquela cara de quem comeu e não gostou.

Aprendizado é realmente valioso diante dos valores de quem se dispõe a aprender. DE QUEM SE DISPÕE.

É naquele meio-tempo da receita de um bolo de cenoura tradicional que você percebe que quer fazer um naked cake. É finalizando o naked cake que você percebe que tudo que queria era comer um tradicional bolo de cenoura. Nessa parte, nesse “click”, você começa a mudar os métodos. Corta o bolo no meio, coloca o recheio e deixa ele peladão. Fica horrível esteticamente. Você morde e…. DELICIA! (mesmo gosto do bolo tradicional)

Yes! Aprendi a fazer bolo pelado!

Afinal, cada um com seu aprendizado, e, principalmente, com a percepção que se tem dele. Ensinamos nossos avós. Nossos pais nos ensinam. Aprendem conosco e ensinam pros nossos filhos e avós. De novo. TEM TEMPO?

Fico aqui matutando sobre tudo que queria aprender. Depois fico aqui pensando sobre o nada que iria fazer com aquilo. Mas é isso. Curiosidade. Superação pessoal. Busca. Alimento. Vivência. Experiência. O que a gente não costuma perceber, é que no intervalo da aula de piano, com seus dedos curtos e sua falta de jeito, sua professora te convida pra tomar um café, e vocês ficam horas divagando e refletindo sobre a vida. Trocando casos mirabolantes. PRONTO! Leu a receita, separou os ingredientes em suas quantidades ideais, sovou a massa, aguardou o tempo certo e FIM! Aquela bolada de aprendizado. Ô calda de gratidão. INICIO.

Viver e aprender o que NÃO quer fazer, fazendo! TEM TEMPO? Fico aqui com os meus botões. Que abotoei um em cima do outro, no lugar do outro, e agora decido que não quero usar mais essa camisa tão SOCIAL, passada, limpinha, engomada.

Quero colocar mais botões na calça que está caindo! Deixa cair? Ou alguns botões na cuca que parou de funcionar ou que funciona demais. STOP. PLAY. PROSSIGA.

O botão da resiliência, da paciência.

E tem sempre aqueles sujeitos que demoram pra aprender, mas aprendem. Provam, gostam, mas são cheio de receios de oferecer e ninguém querer experimentar, ninguém gostar.

Opa! Hora de aprender!

LÊ, LÊ e LÊ. ALGO QUE PODERIA SER UMA COLETÂNEA DE LIVROS.

De repente, você conversa com alguém que lhe diz: “quando ele me disse isso, aprendi que fazemos bolo pra dar errado. Isso é a coisa mais natural que existe.” A frase que ele escutou devia ter no máximo 4 palavras. Nada comparado àquela coletânea sem fim! Percepção. Aprendiz. Tempo.

Me parece que o mundo vem querendo aprender tudo, buscar solução pra tudo. Vida. Morte. Vida após a morte. Corrupção. Política. Esquemas de governo. Vida saudável. Alimentos. Raiva. Medo. Ansiedade. Ciência. Profissão. Dinheiro. Investimento. QUE CRISE.

Porém! AH! Porém!

Acredito que o maior desafio hoje, é aprender a amar. Porque tá faltando amor. E porque SOBRA AMOR. E nisso, parece que tá todo mundo CRÚ.

Delicia de AMOR. Isso sim é um bolo NÚ.

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Crônicas da Fê – RIP Gasparzinho

por Fê Petri

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Medo. O medo do velho novo século não é o medo do escuro. Da montanha russa. Do filme de terror. Do trem fantasma. Do castelo do horror. Do Frankstein. Do mostro do lago. Do Pitbull bravo da casa vizinha. De abelha. De maribondo. De aranha. De cobra. De roda gigante (por que não?).

A montanha russa virou nossos relacionamentos. O filme de terror, o término do relacionamento. O trem fantasma que leva pessoas queridas. O castelo do terror que abriga a saudade. O Frankstein que te deixa inerte. O mostro do lago que te rouba. O pitbull que trabalha do seu lado. A abelha que te pica te deixa triste. Do maribondo que não saiu do quarto até agora e te deixa angustiada. Da aranha que tece teias de problemas que não existem dentro da nossa cabecinha inquieta, e nos deixam ansiosas. Da cobra que parece você, rastejando por não ter coragem de levantar e encarar o mundo. Da roda gigante que é o sobe e desce do seu humor.

Sou a chapeuzinho. Você, medo, o lobo mau.

Quem dera o medo de hoje fosse daquele bichinho meio esquisito que aparecia nos desenhos que você assistia quando era pequenino na sua sala colorida e bagunçada por brinquedos. Rio de lagrimas sinceras. Quem dera o medo fosse o sentimento previsível como era entrar no castelo do horror. Fosse do filme de terror que você pode pausar e escolher nunca mais voltar a assistir.

Não, não.

O medo do século é outro.

Medo de não conseguir ser quem quer ser. Ou de não descobrir quem realmente é. De não superar a dor. Medo de não formar no que quer. De não arrumar o trabalho que ama. De não corresponder às expectativas próprias e alheias. De amar demais. De não amar. De se entregar. De não se entregar. Do casamento dar errado. De não casar. De não fazer tudo que planejou (não interessa quantos e o tamanho de seus planos). De se frustrar, de decepcionar sua família. Desapontar seus amigos. Deixar triste quem se ama.

De tentar e não conseguir (prefiro nem tentar? Afinal, não gosto de não conseguir).

O medo nos paralisa. Impede os feitos. Bloqueia nossos grandes méritos. Afasta da vontade de amar.  Não deixa a vida fluir, os sentimentos fluírem, a saudade aumentar, nos impede de dançar, cantar alto, dar uma cambalhota no meio de uma praça lotada quando se tem vontade. Porque o medo aqui, não é de machucar a cabeça, ou bater a perna no coleguinha da frente que às vezes esta meditando. É do julgamento. Porque hoje é assim. Se não é espontâneo é careta. Se for espontâneo é louco. E você não quer parecer louco, muito menos careta. Prefere ficar em cima do muro. Pule! PULAR? Tenho medo de altura!

Medo de amar? Affe! Desse boneco do Chuck to cansada.

E o medo de enfrentar o medo? Viva a redundância!

A ansiedade gerada pelo medo dá uma quebrada no nosso carrossel. E depois, lá estamos nós, aprendendo a andar de velotrol de novo. Pra tirar a primeira rodinha da bicicleta é um parto! PARTO? Ai meu deus!

Oi medo. Agora que te conheci, pode dar meia volta e ir embora. Não quero ser indelicada. Mas você esta impedindo meu parque de diversões de funcionar .

Qual a função do brinquedo de terror em parque de diversão? Adrenalina. A adrenalina no século 21 virou depressão. Crise ansiedade. Que pânico!

O negocio é o seguinte. O castelo de terror que te deu aquele medo danado na primeira volta, é o mesmo que você vai entrar na fila e dizer: vou de novo! Sem medo dessa vez! Quer saber, vou dar play naquele filme que me apavorou ontem, nem deve ser tão medonho assim! Tudo coisa da minha cabeça!

SIM! COISA DA NOSSA CABEÇA!

Medo, medinho, medão… A falta da coragem. Não conheço UMA pessoa nesse “mundão de meu Deus” que não queira ser corajosa. Mas a coragem vem pra te dar muita opção. Pra te abastecer de ideias. Pra te alimentar de oportunidades. E nem todo mundo sabe o que fazer com tudo aquilo.

Mas, pensa, sofre um pouco, escolhe, vive corajosamente, e, de repente, ta no seu quarto abrindo seu armário e procurando o bicho de sete cabeças que estava ali há pouco. Foi abduzido. Sumiu. Escafedeu-se.

Que o medo seja nosso aliado, capaz de nos fazer reconhecer nossas fraquezas, trabalhá-las, superá-las.

Desconstrua esse castelo. Vamos rápido nos permitir sair com Frankstein, nadar pelado com esse monstro do lago, deixar essas abelhas trazerem nossa toalha depois do banho (tipo cinderela), dançar com os morcegos no escuro com uma cobra de cachecol a tira colo, e levar logo aquele pitbull da vizinha para andar no trem fantasma!

Nesse bate-bate da vida, somos a água mole, o medo, a pedra dura.

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Crônicas da Fê – TIC TAC

por Aline Resende

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O tempo passa. O tempo espera. O tempo apressa. O tempo cura. O tempo aperta. O tempo leva. O tempo traz. TEMPO REI.

Quantas vezes você, provavelmente, assim como eu, já bateu de frente com o tempo? Já brigou, já agradeceu, já quis materializá-lo para lhe dar uma estrangulada básica, ou para lhe abraçar forte e lhe beijar a boca? Santo tempo! Maldito tempo!

Fato é, julgamos o danado do tempo, o tempo inteiro. IMPRESSIONANTE. Como ele passa devagar quando estamos perto de tirar as nossas “tão esperadas” férias. Mas é só chegar o grande dia: “Meu Deus! Como o tempo está passando rápido!” “Mal colocamos nossos pés aqui e já estamos voltando!”, “Parece que chegamos ontem” (…). Quando se dá conta, estava em um mochilão de 40 dias… Ora! Tem gente que se conhece e decide se casar nesse tempo!

Tem ainda, aquele corriqueiro: “Chega o natal, mas não chega a hora de ir pra casa!”. Vê uma árvore de Natal reluzente no shopping no mês de outubro e com espanto: “Já chegou o natal?”.

O famoso “gostaria que o dia tivesse 72 horas para fazer tudo que tenho pra fazer hoje”. Começa a contar um caso: “outro dia…”, quando vai realizar esse dia foi há quatro anos.

Fazemos do sagrado tempo o que queremos. Abusamos da sua boa vontade. Queremos mais. Sempre mais. Queremos menos. Suplicamos por pular etapas, situações que não estamos a fim de viver, de passar. Pedimos um minuto a mais. Um dia a mais. Um mês a mais. Um ano a mais.

TEMPO! Pare! Congele para que possa viver isso pra sempre! (imagina que chato viver uma situação pra sempre…).

É a semana que passa devagar. O final de semana que passa rápido demais.

Outro dia me peguei reclamando da demora da cafeteira em começar e expulsar o cafezinho matinal. Em outra oportunidade, lá estava eu, quase beijando a cafeteira por ser a melhor cafeteira do mundo e proporcionar um café tão gostoso e quentinho em tão pouco tempo! (não importa a quantidade, o tempo sempre foi e sempre será o mesmo).

Semana passada no trânsito de volta pra casa, acho que envelheci uns 12 anos parada com meu carro no mesmo lugar, e, quando olhei no relógio, haviam passados uns “justos” 5 minutos. Na outra, achei uma nova playlist no spotfy, vim fazendo aquele karaokê do trabalho até em casa, e, quando vi, havia levado mais de 2 horas no meu trajeto. Cheguei feliz, sem sede, sem fome e meio roca.

A verdade é essa! Exaltamos o tempo. Culpamos o tempo conforme nossa conveniência, necessidade e prazer… Queremos resultados rápidos, otimistas. Queremos logo a cura de um coração partido. A chegada do novo amor. Do sucesso profissional. Do sucesso da dieta. A dieta que começa depois do natal e te deixa dois quilos mais magra para o ano novo… Como não? Por que não?

A aceitação e amadurecimento com o nosso calendário e nosso relógio é algo encrostado no nosso padrão de evolução, algo construído e constantemente aprimorado. Nosso ego ainda funciona como cronometro. Nossos defeitos “pifam” nossos ponteiros. Nossa chatura quebra qualquer vidro de relógio de parede. Aqueles bons e velhos relógios que te surpreendem dando aquela badalada das seis da manha, pra lembrar que a vida existe, e que você tem que se por de pé, para fazer e acontecer.

A impressão que tenho é cada pessoa tem uma quantidade de horas no dia, meses por ano, anos nos ciclos. Um dia desses conheci uma pessoa que me contou tantos feitos, trabalhos, cursos, e, invés de 85, ele tinha apenas 28 anos. Em contrapartida, sempre tem aqueles que se “tocam” que são seres humanos e resolvem se movimentar aos 40. Alguém certo? Alguém errado?

O que dizer sobre o tempo e a forma como as coisas acontecem pro outro se você não é o outro? Não pensa como ele, não quer as mesmas coisas que ele, não fez as mesmas coisas que ele, não busca as mesmas coisas que ele. Nosso tempo não é medido pelo tempo concedido a ninguém. Sim. Pode ser que isto nos tire um pouco a direção, nos deixe mais perdido. Mas é exatamente isso que nos apresenta caminhos, oportunidades, necessidades, possibilidades.

Tento a cada dia, respeitar o Sr. Tempo um pouco mais. Claro que de vez em sempre tenho vontade de lhe dar uns puxões de orelha, e, depois, volto a lhe amar eternamente. Quer dizer, eternamente não. Ele não me concedeu isso. Ele nos ensina, cura, impulsiona, acalma. Entender que cada um tem seu relógio. O meu faz TIC, o seu faz TAC.

Fernanda Petri

Relogio